sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

No dia 18 de Fevereiro de 2010, terça-feira, o grupo dirigiu-se a Alcobaça para visitar o Centro de Tratamento Villa Ramadas.
Partimos de Oliveira de Frades, por volta do meio dia, e chegamos ao destino depois das 14:40h (10minutos de atraso :s).
Depois de uma viagem tão atribulada como a nossa, dividida entre paragens para casa de banho, um carro que não pegava, estarmos perdidos no meio da pequena (mas muiiito confusa) vila de Alcobaça, e sermos guiados pelos senhores polícias (que infelizmente, sabiam menos que nós), há que admitir que chegar ao Villa Ramadas foi como que chegar ao paraíso.
Apesar de, na chegada, termos também problemas, uma vez que não encontrávamos a entrada, lá conseguimos, FINALMENTE, iniciar a nossa breve jornada.
Reunimo-nos num círculo e começamos a ouvir relatos de vidas, de passados dolorosos. Estavam perante nós 8 adictos (com adições como o álcool, a droga, a anorexia/bulimia, a auto-mutilação, a depressão, o isolamento, …) que remexiam no seu passado e nos seus erros, e ao mesmo tempo que nos davam grandes lições de vida e força de vontade, reforçavam, para si próprios, a importância do tratamento por que estavam a passar.
Emocionamo-nos, de facto, com as descrições das vivências daquelas pessoas: pessoas que, por vezes sem motivo aparente, se deixavam cair numa tentação, deixando-se ir até ao fundo do poço.
A citar, apontamos o exemplo de M., uma adolescente que havia perdido os pais, ainda muito nova, devido às toxicodependências. Sentindo-se desde sempre uma criança inferior, M. começou a dedicar-se à ginástica acrobática de competição. Daí começou a sua obsessão com o peso: cada vez que se pesava, M. tinha de ter perdido um quilo, pelo menos, em relação à última. A anorexia levou-a a mentir aos familiares e amigos. Passou depois à bulimia, ao álcool, à droga, à auto-mutilação… Já no centro, M. não aguentou e provocou o vómito. Depois de o fazer, ficou a sentir-se mal o que, para agravar a situação, a levou a auto-mutilar-se, utilizando um corta-unhas. Segundo ela, as dores psicológicas que sentia, não eram suficientes. Precisava de, de certo modo, castigar-se, pelo que havia feito.
Ouvimos também S., adolescente, que se havia isolado do mundo, trancando-se literalmente em casa, no seu quarto. S. sempre havia sofrido complexos, nomeadamente com o seu corpo, e sempre havia sido bastante tímida. Os complexos provocavam-lhe uma forte obsessão por emagrecer o que, aliás, a fez inscrever-se num ginásio, onde o seu “personal trainer” se fazia a ela. Ela disse, aliás, que a situação ia ficando extremamente grave (como S. se encontrava ainda numa fase de tratamento anterior à dos restantes testemunhos, era ainda para ela, bastante difícil falar, pelo que não adiantou nem especificou mais nada).
A par destes, ouvimos A., que influenciada pelo seu grupo de amigas, que decidiram fazer dieta em conjunto, começou também a fazer dieta, o que acabou por levá-la a uma obsessão por doces, chocolates e afins, que comia desenfreadamente, para imediato vomitar tudo. Acrescentou que a sua adição era de tal modo forte que chegava a gastar 100€ em doces, que comia de uma única vez. A. apresentava-se, na reunião, num estado chocante. Estava extremamente magra.
Ouvimos também A., alcoólico em recuperação que estava já gravemente doente, devido ao excesso de álcool e, até então (até à entrada em Villa Ramadas) respondia simplesmente, a quem se preocupava com ele e dizia que seria melhor proceder a tratamento, um mero e duro “Eu é que sei”; E. e K., ex-toxicodependentes que haviam sofrido bastante devido ao vício que os prendia (E. relembrou uma frase que a sua mãe lhe disse então: “Tu não és o filho que eu pari”.); N., que após concluir, com grande proveito, o seu curso superior, publicou uma obra e acabou enganado, sendo que não recebeu mérito ou lucro algum e J., alcoólica também em recuperação.
Afirmou-se que, ao entrar em Villa Ramadas, era precisa livre vontade, sendo que, aliás, cada um dos pacientes assinava um documento em que declarava que se entregava ao tratamento por vontade, desejo e intenção própria.
Os princípios fundamentais em que Villa Ramadas se baseia, ficámos a saber, são a Humildade e a Fé. É preciso ser-se humilde ao ponto de se entregar aos outros, percebendo-se como ser igual aos outros, nunca superior, partilhando com eles as suas vivências e ouvindo-os, apoiando-nos. É também preciso ter-se fé: acreditar, crer que há uma solução, há sempre solução e resposta, mesmo quando caímos no fundo do poço. É essencial que se mantenha a esperança viva de que há outro mundo, melhor, onde podem voltar a ser felizes, deixando adições.
Em relação ao tratamento, soubemos que se baseia no “Programa de Doze Passos”. Ao ouvir a própria história, o próprio “nascimento” deste programa, ficamos bastante impressionadas. Basicamente, podemos acrescentar que foi criado por dois americanos, adictos (alcoólicos) que, sentindo-se já sem esperança, doentes, incapazes, se cruzaram, ao acaso, num dos imensos hospitais por que passaram, na tentativa de abandonar a sua adicção. Ficando juntos no mesmo quarto, começaram a falar e daí percebem que, conversando um com o outro, e partilhando os seus sentimentos, angústias, dores, esquecem ou, de certo modo, aliviam a sua vontade de beber. Este tratamento que, inicialmente, servia apenas para adictos pelo álcool, acabou por estender-se às várias dependências. Para mais informações sobre este podes, entre outros, aceder à Wikipédia (http://pt.wikipedia.org/wiki/Programa_de_12_passos).
Algo que não podemos deixar de citar, uma vez que, sem dúvidas e unanimemente nos impressionou imenso, foi aquilo a que chamam “Jardim do Passado”: ao darem por concluído o seu tratamento, os pacientes podem deixar nesse “jardim” algo que simbolize o que lutaram, e no fundo, o passado, ao qual não vão regressar. Pode ser um objecto, uma escultura, uma árvore plantada… Algo que, de certo modo, representa uma nova vida.
No que toca às instalações, Villa Ramadas está extremamente bem-servido, sendo possível conjugar o bem-estar físico com o psicológico, sempre rodeado pela natureza.
Foi, portanto, sem dúvida, uma visita extremamente proveitosa e que gostaríamos, certamente, de repetir. Aos testemunhos, aplaudimos a coragem e força de vontade e desejamos, com toda a nossa força, boa sorte.

Até uma próxima,

ABC da Adolescência

1 comentário:

  1. Tenho a certeza que, apesar de atribulada, foi uma visita bastante proveitosa e emocionante.
    Pena nossa que não nos tenham podido levar até lá, enfim, são as condições que temos, míseras condições.

    Fica um beijinho de força e de parabéns pelo vosso trabalho.

    Antea Gomes.

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